As mensagens recebidas diretamente de Deus ou pelos seus representantes na Terra deveriam evitar que chegássemos ao ponto que estamos. Vivendo em uma hierarquia onde a competição pela dominância se impõe, assim como na vida natural dos animais. Parece que o resultado que as religiões esperavam era outro, algo que transcendesse as leis da natureza e que nos levasse a uma moral tão elevada que alcançaríamos o respeito incondicional por tudo que existe incluindo nós mesmos. Alguma coisa deu errado.

Uma das principais ferramentas da disputa pelo primeiro lugar é a linguagem. Depois da observação (ou aprendizagem social) a linguagem é o principal meio utilizado para ensinar. A manipulação da linguagem em um processo de venda, seja no cinema, em um programa de TV, em um blog, no discurso de uma celebridade ou dentro de uma igreja, interfere nesse aprendizado principalmente quando aquilo que é dito não corresponde com a realidade (ou seria com a verdade?), criando uma desassociação na percepção das pessoas entre o que é determinante e o que não é, podendo trazer um futuro obscuro para gerações inteiras. Um exemplo desse sucesso catastrófico de manipulação da linguagem são as campanhas eleitorais no Brasil, outro exemplo bem-sucedido é a transformação de produtos nocivos para a saúde em itens de desejo espalhados pelo mundo.

Onde estamos errando? Por que mentimos para eleger um candidato ou vender produtos? Por que aceitamos passivamente as condições oferecidas ao invés de impor nossas necessidades?

Claro que envolve questões complexas para uma resposta responsável, mas, acho que podemos enumerar pelo menos dois comportamentos humanos que favorecem a lei do mínimo esforço e caem na emboscada da manipulação da linguagem. A lei do mínimo esforço diz que optamos em fazer aquilo que custará menos energia para obter um resultado e, se estamos gastando muita energia ao ponto de atingir o estresse, provavelmente o resultado será insustentável, junte a isso uma capacidade extraordinária de adaptação e temos milhões de pessoas submissas a condições mínimas de emprego, moradia, saúde, segurança, educação e lazer (nem vamos comentar sobre a cultura).  É aí que abre uma brecha na evolução humana e surgem as perigosas soluções “eficazes”, geralmente oferecidas pelos nossos líderes hierárquicos, pegando carona no mínimo esforço coletivo, nos dando a opção de escolher o candidato menos corrupto, a universidade menos ruim ou a comida menos tóxica.

O problema não está em um comportamento que evoluiu a milhares de anos (a necessidade estrutural de lideranças), está na manipulação desse comportamento para levar as pessoas ao erro e infelizmente a comunicação tem um papel importante nessa mecânica de convencimento.

A ferramenta mais promissora para diminuir os efeitos nocivos da desigualdade entre as pessoas está na educação. Educar é usar a linguagem para promover a igualdade de oportunidades entre as pessoas dando acesso ao conhecimento, é decodificar as possibilidades desenvolvendo o potencial humano. Somos uma população mundial de ignorantes manipuláveis a todo o tempo, por todos os lados, não porque temos a obrigação de saber sobre tudo, mas porque nos falta maturidade para compartilhar conhecimento com transparência e responsabilidade. Qual o propósito de governos e empresas empenharem-se em estudos complexos e pesquisas caras para chegar às causas dos problemas insolúveis da sociedade e depois gastarem o dobro do dinheiro para esconder os resultados?

Trazer à tona as causas da pobreza, das doenças, da desigualdade, do racismo, da corrupção, da violência e tantos outros males históricos, ainda vai contra ao objetivo da conquista e da manutenção do poder (o primeiro lugar na hierarquia). Quem tem acesso ou paga para produzir conhecimento privilegiado geralmente são os mesmos que manipulam as informações e com o surgimento da internet, isso não mudou. Em uma sociedade de consumo o acúmulo de capital é o caminho mais fácil, a manipulação da linguagem é o caminho mais fácil, a censura da oposição é o caminho mais fácil. Essa é a aplicação da lei do mínimo esforço nas mãos dos nossos líderes. Nós, de um jeito ou de outro, permitimos que eles nos representem e talvez neste caso seja verdade o que a crença popular afirma “todos tem aquilo que merecem”.

Não importa o que façamos nunca encontraremos uma alternativa para fugir da competição natural pela dominância e o poder sempre estará nas mãos dos mais “fortes”, seja porque possuem mais inteligência, mais saúde, força, beleza, informações privilegiadas, recursos naturais ou dinheiro. Mas, quando gente poderosa tem boa vontade para agir, faz muita diferença. Ações de boa vontade estão fortemente ligadas ao senso de responsabilidade por meio da empatia e fazer o que é melhor, quando se tem vocação para servir, às vezes, só depende de um pouco de coragem (qualidade indispensável para um bom líder) seja dentro de casa ou no Palácio do Planalto, seja cis, trans, preto, branco, pobre ou rico.

Não somos obrigados a votar em candidatos ruins porque a campanha eleitoral disse que são honestos. Não somos obrigados a repassar fake News para marcar presença em rede social. Não somos obrigados a comer alimentos perigosos porque a embalagem disse que são saudáveis. Não somos obrigados a viver endividados no cartão de crédito porque a vida na TV parece uma festa. Não somos obrigados a nos entupir de remédios porque o sistema de saúde trata os sintomas e não as causas. Vamos duvidar das promessas, desconfiar dos monopólios de poder e pensar a respeito.

Evoluir é o caminho, esse é o jogo da natureza, ela já resolveu a muito tempo como os diferentes podem conviver, basta seguirmos o fluxo e observar como ela promove a hierarquia dos sistemas e capacita lideranças. Tudo está integrado pelo mérito, um depende do outro para coexistir e o objetivo é a estabilidade (a paz), o equilíbrio onde todos cumprem o seu papel e garantem o que precisam, sem exageros, sem esgotar os recursos, sem privar oportunidades, sem desrespeitar a vida, sem verbalizar uma única palavra mentirosa.